RAVENS HOUSE BRASIL

FANZINES * BANDAS * LITERATURA * HQ'S * ARTES * CINEMA * EVENTOS * ATITUDE

Ravens House BR

Prólogo do romance "O Túnel dos Libertinos", de Iam Godoy


O velho cuco descascado pelo tempo acabou de anunciar às nove horas. O velho libertino se esforça pela terceira vez para subir numa cadeira e suas costas doem. Antigamente poderia montar em uma égua selvagem à unha e fodê-la (quando fosse necessário) pelo caminho, tal qual Tia Paculla rezou.

Hoje é apenas um saco de bosta, carne e ossos cansados...

O laço acima de sua cabeça fazia uma dança macabra e ritmada e no momento certo deslizaria suavemente por sua fronte, suada e marcada pelo tempo. O velho sente uma pequena palpitação em seu pênis e ri. As costas doem novamente. Aquela pequena ereção deu uma nova luz ao velho e este desceu da cadeira (sem se queixar das suas costas) e foi em direção da cozinha. Seu velho gato preto o seguia com os olhos, verdes como grãos de Amsterdã. Nas mãos trazia um bizarro arguilê, tão surrado e sujo que parecia ser feito de carne humana. Ele então se sentou, pegou uma vistosa caixa de sândalo e dela retirou um pequeno embrulho. Com aquela pasta, tão negra quando o ônix fez pequenas esferas e as pôs de lado enquanto esquentava alguns discos de carvão. Se fosse para morrer que fosse pelas suas próprias regras, igual ao samurai que visualiza o fim de Endo ou a sensação de calor que sentiram os dinossauros, segundos antes de serem exterminados numa explosão.

O carvão já queimava os pequenos casulos de haxixe e ópio. O velho já sentia aquele maldito gênio se apossando do seu corpo e lhe presenteando com sensações nas mais diversas formas. Numa explosão, enche o quarto de fumaça expelida. O arguilê borbulha uma canção de amor e morte e sua fumaça assemelha-se à dança de uma ninfa do vício: o velho chora. Um choque perfurante como uma adaga lhe atravessa o peito. Sente um gosto de morte na boca e vomita convulsivamente. Os olhos ardem como se tivessem vidro e os dentes rangem uma sonata fúnebre... o veneno curtido nos casulos já devia estar fazendo o seu efeito.

O velho, apesar da agonia do veneno que dilacerava suas entranhas, permaneceu imóvel. A fumaça inebriante do ópio e do cânhamo bailava vitoriosa ao seu redor como uma sinfonia de Wagner e o velho libertino sentiu novamente seu membro enrijecer. Com certo esforço se pôs sentado e abriu suas calças pegando aquele órgão, que estranhamente pulsava em pura vida como se quisesse se separar do corpo que morria. À sua frente um grotesco e disforme túnel se apresentou e o libertino reconheceu naquele lugar a casa em que passou os anos mais sofridos de sua infância. No decorrer do túnel outras imagens bruxuleavam sem forma definida, trazendo lembranças de épocas movidas à luxúria e banhadas no exagero. O velho se masturba e então adentra naquele grande corredor, onde retalhos do passado se apresentam aos suicidas do Purgatório tal quais são ditos nas Escrituras Sagradas.

Compartilhar 

Os comentários estão fechados para esta mensagem de blog

Giovani Coelho de Souza Comentário de Giovani Coelho de Souza em 12 agosto 2009 às 3:07
LINDO!!!

Será um e-book ou livro convencional, Iam?

© 2009   Criado por Ravens House BR no Ning.   Crie Sua Rede Social

Badges  |  Relatar um incidente  |  Privacidade  |  Termos de serviço